segunda-feira, 17 de março de 2008

a loiça

sempre soube que não gostavas de lavar a loiça. Tinhas horror à água, ao cheiro dos detergentes, à ridícula cor das luvas de borracha e ao calor que amolecia e depois estragava a pele das mãos. Era eu que lavava a loiça e lavar a loiça era a forma de conhecer bem os nossos restos: o tamanho das espinhas de beira de prato que cada um de nós não aguentava, as gorduras que rejeitávamos, os ossos duros de roer que não trincávamos.
Era boa esta arqueologia de cada prato, ao jantar; através dela eu conseguia ler as boas e as más disposições do quotidiano que, às vezes ocultavas para não me aborrecer com os teus assuntos. Num dia-sim, não ficava um único bago de arroz no prato, nos dias em que te olhavas demasiado ao espelho, pela manhã, seleccionavas criteriosamente, pela noite, tudo o que podia, eventualmente, tornar-te gorda; num dia de tristeza, a comida ainda intacta no meio do prato, tinha o teu olhar marcado como uma cobertura gélida; havia dias em que vinagre e azeite não se misturavam num pronuncio breve de algo em nós estar mal.
Eu lavava a loiça, limpava tudo e conhecia tudo. Depois encontrava-me contigo no sofá e adivinhava, sob a luz do espanto e encanto do teu olhar, aquilo que precisavas para transformar o fim do nosso dia naquele lugar perfeito ao lado de uma cozinha onde a loiça escorria limpa a água de lavar os nossos restos.

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