tudo começava em Outubro Novembro. Mais ou menos, ao mesmo tempo que o frio ia entrando pela janela da sala numa invasão silenciosa e desconfortável para a nudez da nossa intimidade. Primeiro, apareciam as agulhas naquela dobra em cima da lareira, depois, durante uns tempos, ao chegares a casa, mostravas-me novelos de lã virgem, tentando facilmente provar-me a forma como cada um combinava tão bem com o outro. Em Dezembro, lentamente, numa técnica para mim absolutamente indecifrável, começavam a nascer os teus cachecóis e, daqueles novelos complexos, criavas estradas que, depois de acabadas, enlaçavas no meu pescoço, puxando-me de encontro ao teu corpo com um beijo prometedor.
Eu gostava de ficar ali, meio adormecido, meio morno, numa vigilância displicente à produção daquela arte fluida e ritmada a ver-te esconder que notaste a minha curiosidade com um interesse indolente ao que se passava numa televisão abandonada a uma sintonia aleatória com som baixo e triste. Antecipava mentalmente e numa ansiedade miudinha o momento em que a trama confusa daqueles novelos se iria transformar na simplicidade da tecitura colorida com a qual me prendias, num gesto pretensiosamente agressivo, para me obrigar a fazer amor contigo no chão da sala.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
1 comentário:
... a vida é sempre um novelo!...
Enviar um comentário