quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

corrosão

acordamos como se nos tivessem tirado uma parte entre o final dos pulmões e o fundo da barriga. Levantamo-nos. Não dormimos, ou dormimos mal, ou dormimos pouco, ou já nem sabemos bem a diferença entre a vigilância e o sono. Invariavelmente sentimo-nos uma merda. Sentamo-nos na beira da cama e queremos voltar a dormir, se é que dormimos- quando dormíamos sabia bem, isso sabemos. Passamos os olhos pelas paredes do quarto, temos memórias. Olhamos o umbigo e, na verdade, não há ali qualquer vazio ou bocado a menos. Essa parte de nós e tudo o que habitualmente está à volta ainda existe, está lá, podemos apalpar, tocar a pele e o ventre, sentido também que nada, lá dentro, nos falta.
Estamos física e comprovadamente completos a andar num quarto escuro onde os ácidos da solidão corroem com força o nosso interior. Desejamos uma morte rápida, bem mais rápida que a sucessão de cada um dos dias que estão para vir sem que o nosso olhar se cruze, escute e pare...

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